A triste experiência da Primeira Grande Guerra Mundial (1914-1918) fez descer uma nuvem sombria sobre o cientista que havia tirado o psiquismo humano das trevas: a criança não é tão inocente quanto se supunha, ela fantasia, é um perverso polimorfo, é incestuosa e parricida – sexualidade infantil; estamos desterrados de nós mesmo, daquilo que em mim verdadeiramente deseja – o inconsciente, e a energia que nos move, nasce no corpo e desabrocha no psiquismo – pulsão. A humanidade jamais tomaria a si própria como antes.
Os veteranos da Grande Guerra sentem-se compelidos a repetir. Repetem os sofrimentos passados nas trincheiras da pior das guerras. A dor repetida, o sofrimento repetido, o desconforto repetido, a culpa repetida, a criança repete seu desamparo no jogo do for-da: há um demônio nesta repetição, um primitivo ali escondido. Como repetir a dor se em tudo o que é vivo há um principio de vida, um principio de prazer, um Eros helênico – o Deus que tudo une, que luta pela gratificação, pela superação de todas as barreiras e que mantêm vivo indivíduo e espécie? O seio deste paraíso guarda uma serpente.
Este mesmo Eros, esta mesma força vital pode colocar o individuo em perigo quando ele está a serviço de sua espécie, ou a própria espécie em perigo, quando o individuo coloca-se em primeiro plano – um principio de morte se anuncia, um Thânatos grego – o Deus que tudo extingue. Tudo o que é vivo quer morrer – o principio do prazer levado ao extremo na sua meta remover tudo o que é desprazer, até o fim, nenhuma dor, nenhuma angústia, nenhuma excitação, o organismo e o psiquismo levados a sua origem: morte.
A pulsão de morte “não pode estar ausente de nenhum processo de vida”
[1] e “da ação conjunta e oposta”
[2] destes dois conjuntos de pulsões “provêm as manifestações da vida, às quais a morte vem pôr termo”
[3], morte e vida, sendo uma o principio e, ao mesmo tempo, o fim da outra. “O conflito entre as duas pulsões primárias, pulsão de vida e pulsão de morte, explica a variedade colorida dos fenômenos da vida, e nunca somente uma delas”
[4]. E se ele começa como médico ouvindo seus pacientes com traumas de guerra, termina como filósofo: “as pulsões são serem míticos, portentosos (...)” e que “a teoria das pulsões é, por assim dizer, a nossa mitologia”
[5]. Eros e Thânatos. Velhos deuses por fim reunidos pelo velho ateu.
O psiquismo humano é um campo de batalha e a psicanálise definitivamente não viria para consolar. O ano é 1920, o titulo do pequeno livro é Além do Principio do Prazer
[6], e o autor é Sigmund Freud.
Sérgio Vizeu Lima Pinheiro
[1] Freud, S., Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise, (1933), Edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (E.S.B.), Vol. XXII, Imago Editora, Rio de Janeiro, (2006).
[2] Idem, Op. Citi.
[3] Idem, Ibidem
[4] Idem, Ibidem
[5] Freud, S., Por Que a Guerra?, (1933), E.S.B., Vol. XXII, Imago Editora, Rio de Janeiro, (2006).
[6] Freud, S., Além do Principio do Prazer, (1920), E.S.B., Vol. XVIII, Imago Editora, Rio de Janeiro, (2006).